Roma (Rome) – 1ª e 2ª temporadas, seriado épico sobre a história de Roma de César a Augusto, dirigido por diversos, 2005-2007.
Enredo: Lúcio Voreno (Kevin McKidd) e Tito Pullo (Ray Stevenson) são o comandante e soldado da XIII Legião que involuntariamente participam de pontos nevrálgicos da história de Roma, a ascensão e morte de Caio Júlio César (Ciarán Hinds) e a queda da República, substituída pelo Império. Vemos as intrigas de Átia dos Júlio (Polly Walker) – a vil e manipuladora mãe de Caio Otavio ou Otaviano (Max Pirkis) e Otávia (Kerry Condon) – contra sua rival (não muito menos vil) Servília dos Júnio (Lindsay Duncan), amante preferida de César, que, por sua vez, trata o filho dela, Brutus (Tobias Menzies), como se fosse seu próprio filho. O começo da série mostra o Senado, centro do poder de Roma, tentando lidar com o crescente poderio de César, famoso por ter derrotado os gauleses de Vercingetórix (Giovanni Calcagno) e seu exército várias vezes mais numeroso que o dos romanos. Segue-se a disputa pelo poder. De um lado, querendo a manutenção da República e temendo sua iminente transformação em Império, Pompeu Magno (Kenneth Cranham), seus instigadores e fiéis seguidores Catão (Karl Johnson) e Cipião (Paul Jesson), juntamente com o volúvel Marcos Tulio Cícero (David Bamber) e Brutus. De outro, César e o desbocado, cruel, sarcástico e tirânico Marco Antonio (James Purefoy). Os interesses das partes nunca estão ligados verdadeiramente ao povo, mesmo que pessoas como Marco Antonio, César e Brutus sejam por este admirados. A manutenção de privilégios é o que mais guia estes personagens, sejam eles de origem nobre ou plebéia. (eu diria – pelo menos sob o ponto de vista da série – que as exceções seriam Brutus e Cássio, que realmente queriam preservar a república como ela fora idealizada, longe dos tiranos e ditadores). A primeira temporada trata desde a conquista da Gália até o assassinato de César. A segunda, desde a luta pela sucessão de César até a morte de Marco Antonio e Cleópatra e a assunção do poder de Roma por Otaviano (“Augusto”), herdeiro de César.
Avaliação: A série é extremamente cativante, tem uma trilha sonora hipnotizante e mostra a história de Roma desde as vitórias de César na Gália até a investidura de Otaviano como o imperador Augusto. Conhecemos tal história através dos eventos que permeiam a vida de dois legionários eternamente em conflito, mas que, no fundo, nutrem um amor fraternal um pelo outro. E, nos depoimentos de atores, diretores e responsáveis por diversas áreas da produção, aprendemos interessantes hábitos da época. “Interessantes” é a palavra, apesar de muitos nos soarem abjetos – afinal, tratava-se de outra cultura.
Você se sente na própria Roma, as mulheres dão um show de interpretação, mostrando como manipulavam seus maridos e amantes, mesmo numa sociedade onde o homem tinha a última palavra. Bom, nem sempre, pois seus casamentos e outros pontos da vida social eram determinados por fatores políticos vigentes no momento.
Os DVDs da série oferecem uma versão (“Todos os Caminhos Levam a Roma”) onde o consultor de história da série, Jonathan Stamp, em vez de legendas, faz acompanhar o áudio por pequenas intervenções sob forma de quadros explicativos, que nos mostram o histórico de cada personagem importante, a situação política de Roma ou hábitos culturais peculiares ao local e período. Por exemplo:
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Pichações espalhando segredos de alcova dos patrícios, acusando senadores etc. eram muito comuns em todos os muros da cidade.
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Os romanos tinham na disciplina e organização de seu Exército a chave para vencer inimigos numericamente muito superiores, como os gauleses, por exemplo. A formação em casco de tartaruga, uma compactação de soldados protegidos por seus escudos, tornava-se intransponível aos metais dos adversários. Os apitos dos comandantes sinalizavam as instruções aos soldados que iam se revezando da retaguarda à vanguarda em levas, de modo a que a vanguarda estivesse sempre munida por soldados mais descansados da luta corporal.
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O senado tinha um porta-voz com jeito extremamente peculiar de gesticular e entoar as ordens do dia – era o retrato das técnicas de oratória romanas.
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“Dividir e conquistar” tornou-se lema de César e isto efetivamente favoreceu-lhe as conquistas.
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Até o chicote tinha técnicas de aplicação que permitiam ferir, ferir profundamente ou matar – tudo na maior disciplina…
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Confissões de escravos somente tinham valor oficial se houvesse tortura envolvida, pois se supunha que fossem proteger seus amos até o fim.
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Na cena em que, com um leve gesto, César ordena a retirada da cadeira de cônsul ao lado da sua, no centro do Senado, ele mostrava estar querendo dirigir os rumos de Roma sozinho.
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“Ditador” não era uma palavra deplorável, mas sim uma figura política da época, com período de poder delimitado em lei (que o demagogo César “esticou” para perpétuo).
O sexto DVD da primeira temporada tem dois extras muito interessantes, de cerca de 20 minutos cada. “Ascensão de Roma” mostra os cuidados com a escolha das locações, dos figurinos (algo que particularmente não me toca muito) e, transcorridos cerca de 10 minutos, aí sim, chega parte bastante interessante – mostra-se como eram as opulentas e vibrantes “villas” dos patrícios, as asquerosas favelas de até sete andares dos cidadãos (com sua falta total de esgotos) e os cuidados para reconstruí-las com fidelidade (tanto que até os atores sofriam filmando nas favelas).
O auge é “Em Roma”, o extra da primeira temporada, dividido em temas sobre a sociedade da época, como:
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Religião – a religião destes povos era instrumento para pedidos de vingança e/ou proteção, para oferendas a deuses violentos e/ou protetores, deuses de interesses conflitantes e que muitas vezes se combatiam. Destoando disto, num dos capítulos da série, vemos como o futuro imperador Augusto descrê destes deuses de comportamento humano e acredita num deus único, responsável pelos movimentos do Universo. De qualquer modo, como coloca o consultor Stamp, esta religião estava absolutamente desvinculada da moral como a conhecemos hoje, que tem origem judaico-cristã.
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Escravidão: é possível que os escravos (que podiam ser vendidos como segunda mão ou alugados) fossem até 70% da população. Para os romanos, o pensamento era de que se tratava de uma escolha do escravo estar nesta situação, pois, caso contrário, por que ele não teria tirado sua própria vida? Stamp esclarece que escravos tinham uma versão do “sonho americano”, o “sonho romano”: a possibilidade de comprar sua liberdade. E a maioria até podia sonhar (sonhar!) com isto, pois apenas uma minoria vivia em regimes como os das minas, onde não esperavam sobreviver mais do que três meses. Os escravos “pessoais” tinham tanta intimidade com seus amos que estavam com eles até na hora do sexo, servindo-os, limpando-os… Por exemplo, Posca, o de César, era culto e dedicado, o que lhe favorecia (era o caso dos gregos, normalmente) e lhe deu o privilégio de obter de César a promessa de liberdade caso este morresse em batalha.
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Arenas de gladiadores: antes do Coliseu, as arenas, palcos de lutas violentíssimas e sanguinolentas, eram pequenas, artesanais e montadas em qualquer local da cidade. O nome arena (= “areia”, em latim) vem da areia que era colocada para se misturar ao sangue derramado nas lutas.
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Sexo e comida eram os prazeres mais freqüentes e faziam parte das festividades sem pudor algum. O sexo inclusive era realizado na frente dos escravos, o que denota que estes eram absolutamente ignorados.
O segundo DVD da segunda temporada traz um extra com a história de Marco Antônio e Cleópatra, já declamada por tantos poetas e escritores.
A pergunta final: quem eram mesmo os bárbaros? Se os romanos chamavam seus vizinhos por esta alcunha, imagino como eles seriam… Roma era corrupta, imoral e devassa, uma permanente rede de intrigas, alianças que não se sustentavam e traições eram uma constante, até para os padrões de alguns políticos de hoje. Mas, no final, a humanidade caminha para frente, apesar de tudo…
Confesso que fiquei triste, mas muito mesmo em dois momentos: a derrota de Cícero (mesmo sendo ele volúvel e instável politicamente) e a batalha de Cássio e Brutus contra Otaviano (Augusto). Pelo que depreendi do seriado, três bons homens lutando pelo que julgavam ser o ideal do estado livre da tirania, do respeito à res publica, a coisa pública mantida pelo povo (mesmo que poucos do povo tivessem tal direito). E a gente torcendo para que os rumos da história tivessem sido outros.
OBS: minha adjetivação dos personagens decorre das impressões obtidas do seriado, com o apoio daquelas obtidas da Wikipédia.