A Duquesa (The Duchess), drama romântico e biográfico de Simon Dibb, 2008. C
Enredo: Lady Spencer tem uma vida infeliz ao lado do marido, o nobre mais influente da Inglaterra, que casara com ela porque vinha de uma “boa família”. Tinha dinheiro, era jovem, bonita e poderia proporcionar o que à época se esperava de uma esposa, “lealdade e um herdeiro homem”. Ele era apático, calado e desinteressante. Ela, uma referência da moda, sempre presente nos encontros sociais, nos carteados, divertindo os convivas e adorando envolver-se com a política, tendo, apesar da origem nobre, seus pendores liberais.
Acabamos de falar de Lady Diana Spencer e o Príncipe Charles? Não, de Lady Georgiana Spencer (Keira Knightley) e de Sir William Cavendish (Ralph Fiennes), duque de Devonshire. Mas vê-se que Lady Di parecia carregar nos genes a infelicidade no casamento… o que se ressalta por conta do parentesco entre as duas ladies.
Georgiana fica efusiva ao perceber que atraíra a atenção do duque e logo aceita a idéia de casar-se com ele, apesar da tenra idade (ela tinha 17 anos) e da grande diferença etária entre ambos. . Incitada pela mãe (Charlotte Rampling) a deixar de lado seus logo descobertos problemas conjugais em troca de uma vida confortável, Georgiana busca levar à frente o casamento. Mas, o duque, desde a noite de núpcias, cumpre o ritual do amor com extrema frieza, sem carinho algum, sentimento que só demonstra com os seus cães… Para agravar a humilhação de Lady Spencer, o duque não faz muita questão de esconder as amantes que traz ao castelo; pelo contrário, traz também uma filha ilegítima e obriga a duquesa a conviver numa relação a três, colocando à mesa a amante. As reclamações da esposa merecem como respostas “quem tem o dinheiro e o mando aqui sou eu” e “você tem dois deveres acertados comigo: a lealdade e um herdeiro homem”. Inútil Georgiana recorrer à mãe, pois esta, mesmo revoltando-se com a situação, nada faz senão ceder ao “realismo” e despachar a filha de volta, submissa. Neste final de século XVIII, homens podiam ter amantes às claras; mulheres, nem pensar.
Por seu lado, a duquesa nunca deixara de cultivar a paixão adolescente por Charles Gray (Dominic Cooper). Nesta época que precedia a independência americana e a revolução francesa a duquesa confere seu apoio aos liberais Gray e Charles Fox (Simon McBurney). Enquanto isto, percebendo que a recém-chegada Lady Bess Foster (Hayley Atwell) pode vir a se tornar sua rival, a duquesa cultiva uma aproximação e as duas acabam por se tornarem grandes amigas. Georgiana parece ter controlado a situação e, sabendo que Lady Bess apanhava do marido e que este lhe proibira de ver seus filhos e tinha cortado seus proventos, convence o duque a abrigá-la no castelo. Apesar da grande amizade das duas e do incentivo de Bess ao relacionamento de Georgiana com Charles Grey, esta aproximação das duas pode vir a representar um grande risco, com pesadas conseqüências (mas, aos poucos, entendemos a posição de Bess).
Enquanto isto, Georgiana somente consegue dar a luz a duas meninas (para imensa, profundíssima decepção do duque) e sofre vários abortos. Mas está decidida a partir para os braços de Charles Grey – se chegar a um “acordo” com o duque…
Avaliação: O filme começou meio lento, mas foi se tornando quase um suspense, com a torcida para que Georgiana conseguisse livrar-se do duque e ficar com seu amado (que, aliás, amava imensamente e arriscaria sua incipiente carreira política para ficar com ela). É revoltante ver como o dinheiro e o machismo tinham tanta influência. Na política, poucos eram os que podiam votar e mulheres não estavam entre estes – mas a duquesa conseguiu cultivar um participação relevante –, devido à sua presença e falas cativantes. Na figura de Lady Bess, vemos o lado machista da sociedade com mais intensidade, pois seu marido cultivava amantes e abusava de sua posição, espancando a mulher e tirando-lhe o sustento e, principalmente, o direito de ver seus filhos, quando ela resolveu dar um “basta”. As únicas mulheres no país com poder de mando até meados do século XX devem ter sido as rainhas (e algumas amantes de nobres). Mas uma das raras (e tocantes) falas do duque mostra como, apesar das mulheres e de todo poder político, financeiro, faltava a ele também o sabor da liberdade, preso que estava aos rituais sociais da época. Meu entusiasmo já crescente pelo filme chegou ao ápice com esta fala e com as poucas linhas que precediam os créditos e falavam sobre o destino dos personagens. Uma aula de história, sobre discriminação e sobre a ditadura dos costumes. Era bem o estilo da Sarah, mas este ela não viu…
Curiosidade: Sarah Ferguson (“Fergie”), casada com o Príncipe Andrew, era parente de Lady Di, por parte de Georgiana. E Charles Grey, o conde de Grey, é quem dá o nome ao famoso chá Earl Grey.