Geração Roubada (Rabbit-proof Fence), drama histórico de Philip Noyce, com um toque de aventura, com Keneth Branagh, Everlyn Sampi, Tianna Sansbury, Laura Monaghan, David Gulpilil, Jason Clarke e Roy Billing. C
Enredo: O Sr. Neville (Branagh), “protetor-mor dos aborígines”, era senhor da vida dos mestiços de brancos com aborígines na Austrália dos anos 30. Sua política racista previa a assimilação dos “inferiores” nativos, ao invés da eliminação, como preconizariam os nazistas. Assim, os mestiços eram trancados em internatos de freiras que, se não tinham condições de vida como as dos campos nazistas, tiravam toda a liberdade dos mestiços e puniam as tentativas de fuga. O Sr. Neville (ou “Sr. Devil”, como o chamavam as internas do campo mostrado no filme) escolhia os mestiços mais brancos para seu projeto de “purificação” e os entregava para se casarem com brancos (significativa é a palestra que ele dá e onde projeta slides mostrando como os casamentos sucessivos com brancos vão eliminando os “indesejáveis” traços aborígines nas novas gerações). O filme mostra a trajetória de três (Sampi , Sansbury e Monaghan) das tantas meninas arrancadas à força de suas mães (daí o “Geração Roubada”) – em 1931 – para serem internadas e forçadas a adotar o cristianismo e abandonar seu dialeto, o wangka, adotar exclusivamente o inglês e serem ensinadas a trabalharem como domésticas. Mas, como tantas outras, lideradas pela decidida Molly (Sampi), elas tentaram a fuga, caminhando por mais de dois mil quilômetros e tentando seguir a cerca à prova de coelhos que o governo instalou, e que foi o único “guia” que tiveram, já que sabiam margear a aldeia onde moravam. Perseguidas pelos policiais e por um excelente rastreador nativo (Gulpilil) – ironicamente também ele pai de uma menina “roubada” -, passaram meses enganando a todos, às vezes sendo ajudadas por outros brancos ou aborígines, às vezes tendo sua localização denunciada. Uma “pedra no sapato” do Sr. Neville, elas deram-lhe “um baile”. Apesar de tudo, este incorrigível idiota manteve seu cargo de “Protetor-mor” até 1940, quando se aposentou e, incompreensivelmente, esta política racista vigorou até 1970.
Avaliação: O filme ficou pouco tempo no cinema e o perdemos. Pena, pois deveria ser visto por todos, tanto pela excelente trama, que mescla num caso real o suspense de não se saber se as protagonistas conseguirão seu intento, como pela garra que as meninas tiveram de percorrer centenas e centenas de quilômetros pra voltarem às suas mães. A fuga das meninas realmente prende o espectador; o filme não tem nada de enfadonho, pelo contrário, tem ate tensão. E vale pelo desempenho das atrizes (principalmente de Sampi) e de Branagh, que aparece pouco, mas aparece bem. E mais: o filme mostra como o ser humano é capaz de tanta estupidez que às vezes nem merece ser chamado de racional. Talvez, como o livro que deu base ao filme foi escrito pela filha de uma delas, haja um excesso de pendência para um lado da história, pois seria revoltante um governo como o da desenvolvida Austrália ter adotado uma política racista semelhante à dos EUA no segregacionismo. Mas, vendo os nomes ocidentalizados das atrizes de origem aborígine, ficamos nos questionando…

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