Lugar Nenhum na África (Nirgendwo in Afrika)

Lugar Nenhum na África (Nirgendwo in Afrika), drama romântico e biográfico roteirizado e dirigido por Caroline Link, baseado no livro autobiográfico de Stephanie Zweig. Com Juliane Kohler, Merab Ninidze, Matthias Habich, Sidede Onyulo, Karoline Eckertz e Lea Kurka. C

Enredo: 1938. Alguns judeus alemães tiveram a visão de perceber que seu destino na Alemanha não seria dos melhores e partiram. Um deles foi o jovem advogado Walter Redlich (Merab Ninidze), que conseguiu um emprego de capataz numa isolada fazenda no Quênia, à época colônia inglesa e, pouco depois, conseguiu obter vistos para a esposa, Jettel (Juliane Kohler) e a filha, Regina (Lea Kurka, quando pequena, Karoline Eckertz, quando adolescente), então com cinco anos. Eles tiveram que partir sem dinheiro ou posses e recomeçar numa situação muito difícil: ele deixou a perspectiva de uma brilhante carreira para trás, para realizar um trabalho braçal e que nada tinha a ver consigo; ela deixou uma vida que, apesar de difícil, ainda tinha seus luxos perto daquilo que passaria a enfrentar (por outro lado, esta vida na Alemanha tendia a ser curta…) – mal acostumada, ela deixou de comprar uma geladeira, algo que fazia muita falta a Walter no Quênia, para comprar uma caríssima e inútil camisola e usar o espaço da bagagem para trazer porcelanas…; e, mais, de sua vida na Alemanha ela carrega um racismo não muito enrustido contra os negros… Já Regina, que na Alemanha “nem pisaria na grama descalça”, esta sim adorou a novidade e logo se adaptou, fazendo amizade com o cozinheiro queniano, Owuor (Sidede Onyulo), que viria a ser como um segundo pai para ela, além de servir de guia para suas “descobertas” neste novo continente. Para ajudá-los com a nova vida, os Redlich contam com a ajuda do fazendeiro Süskind (Matthias Habich), um judeu que fugira da Alemanha anos antes e que, tendo trazido suas posses, levava uma vida melhor.

Ao longo do enredo, percebemos como as opiniões sobre o país por parte de pai e mãe vão mudando na medida em que vivem suas experiências – cada hora é um que quer partir e outro que quer ficar, gerando conflitos e azedando a relação entre ambos; mas estes momentos são alternados com outros em que a luta pela sobrevivência no dia a dia une a família de uma maneira especial. Neste enredo, muitas situações vão se passar: a guerra na Europa, as cartas das famílias de ambos, demonstrando como elas vão desaparecendo sob a fúria nazista, as situações dos imigrantes judeus alemães no Quênia, o desdém do líder da comunidade judaica, um inglês, em relação a estes imigrantes, a ida de Regina à escola inglesa e a descoberta do mundo dos livros.

Avaliação: Como muito bem descreveu meu amigo Sílvio, este filme (Oscar de filme estrangeiro 2003), é uma poesia. Talvez o melhor de 2004. A trilha sonora de Niki Reiser hipnotiza, faz-nos entrar no clima do filme. As atuações de Karoline Eckertz e Juliane Kohler são excelentes. Mas Lea Kurka e Sidede Onyulo, assim como as paisagens do Quênia, são a alma do filme. A amizade entre ambos é um filme à parte, algo lindo e puro – no começo, ela é atiçada pela curiosidade de conhece alguém tão diferente, já que ela jamais vira ou tocara uma pessoa de pele negra; no fim, ele torna-se como um pai para ela, uma figura serena, um mestre da vida na África.

O filme tem momentos tristes, como os que, sem imagens, apenas com cartas dos que ficaram na Alemanha,  mostram o cruel destino dos judeus na Europa. Tem também momentos engraçados, como os da descoberta da África pela pequena Regina, os do internamento dos “prisioneiros de guerra alemães” no hotel em Nairobi (e o gerente que não quer baixar os padrões de atendimento apenas por se tratarem de prisioneiros de guerra), além de muitos outros. IMPERDÍVEL, mereceria ganhar o Oscar por anos seguidos. Todos com quem comentei adoraram o filme (eu assisti duas vezes e veria outras tantas, algo que não costumo fazer…).

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