http://vejasaopaulo.abril.com.br/revista/vejasp/edicoes/2117/solidariedade-zero-477071.html
“É uma atitude frequente. Assaltantes cometem violências diante de testemunhas que desviam o olhar. Nos semáforos, enquanto alguém é roubado, os outros motoristas ficam em silêncio, imóveis. Raramente alguém chama a polícia.”. O cronista tem razão. Realmente, acostumamo-nos a ter que depender de nós mesmos, não termos apoio do Estado. Ficamos com raiva, mas com medo – até para ajudar com um simples telefonema para a Polícia. Ou será “acomodados”? Talvez por termos certeza de que nossa acao não trará a correspondente reacao do Estado ineficiente…
Assaltos? Pois é, depois, ainda temos que dizer “ainda bem que só te deram uma coronhada e acabaram com teu carro”; ou “Pelo menos deixaram os documentos”… Aonde chegamos?
EIS A CRÔNICA:
Solidariedade zero
Por Walcyr Carrasco
| 17.06.2009
Estou na podóloga. Jogamos conversa fora enquanto ela ajeita minhas unhas. Como de praxe, falamos sobre assaltos, tão comuns no dia a dia do paulistano. Recentemente, conta ela, assistiu a um, em frente ao seu salão: três rapazes arrombaram um carro, sem se importar com o alarme, depenaram e fugiram. Fico espantado.
- Você não chamou a polícia?
- Eu não! Tive medo de que eles descobrissem e se vingassem mais tarde.
Observo a rua. Há uma banca de revistas, dois bares e prédios com porteiros devidamente protegidos por grades. Indago:
- Como saberiam, se você está aqui dentro?
- Ah, não sei… Mas o homem da banca disse que eu fiz bem.
É uma atitude frequente. Assaltantes cometem violências diante de testemunhas que desviam o olhar. Nos semáforos, enquanto alguém é roubado, os outros motoristas ficam em silêncio, imóveis. Raramente alguém chama a polícia. Ao sair de um caixa automático de um banco, à noite, certa vez um conhecido testemunhou o que poderia ser um sequestro-relâmpago. Uma jovem em lágrimas era levada para dentro de um carro, onde já havia um motorista esperando. Surpreendi-me:
- Ficou quieto? Não fez nada?
- E se fosse só uma briga de família? Com que cara eu ia ficar?
- Se a moça estava chorando e sendo forçada a entrar no carro, mesmo pelo marido, você teria feito muito bem em pedir socorro – respondi.
Recebi de volta uma expressão de desagrado.
As pessoas preferem se abster. Pior: às vezes ficam aliviadas, por não serem elas mesmas as vítimas. Somem de cena, voam para seus carros, enquanto alguém se rala. Dia desses uma amiga comentou, falando de outra:
- Estava conversando no celular no meio da rua. Também, pediu para ser assaltada!
Além de ser roubada, a pessoa ainda leva a culpa? É um jeito muito maluco de encarar a situação. Mas comum. Recentemente, um conhecido comentou:
- Fui assaltado quando passeava no bairro de noitinha. A culpa foi minha, porque aquela rua é muito vazia.
Foi assaltado e a culpa é dele mesmo? Estava andando em um local cheio de prédios, com porteiros e zeladores que assistiram impávidos à violência.
O descaso se estende até a situações onde não há violência explícita. Certa vez, na Rodovia Raposo Tavares, passei por um carro parado na pista do meio. O motorista caído sobre o volante. Os veículos desviavam. Impossível parar e atravessar a pista para ajudar, devido ao trânsito. Acelerei até o posto rodoviá-rio. Pedi socorro, mais por desencargo de consciência. Estava certo de que muitos outros já haviam feito o mesmo. Coisa nenhuma! Ninguém tinha se dado ao trabalho de avisar!
Não me julgo um exemplo. Só tento me colocar no lugar da pessoa. Como me sentiria se me roubassem e todo mundo fingisse não ver? Há maior solidão do que essa? No entanto, abandonar o próximo em uma situação difícil não é uma total falta de compaixão?
Sinto que o cidadão trocou a segurança pela burrice. Durante o papo com a podóloga, questionei:
- E se todo mundo, você, o revisteiro, o pessoal dos bares, os porteiros, chamasse a polícia todas as vezes em que houvesse um assalto?
Ela me olhou admirada. Concluí:
- Em pouco tempo a situação iria se inverter. Os ladrões deixariam de roubar por aqui.
Ela suspirou e terminou de lixar minhas unhas. Prometeu que vai mudar de atitude. Será? Fui embora com a sensação de que a vida na metrópole será muito melhor quando cada um descobrir que se tornará mais forte ao ajudar o próximo.
Queria escrever sobre a luz de maio
RUTH DE AQUINO é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
Como será nosso brasil em 2020? Esta edição de ÉPOCA olha para o futuro. Desafios e oportunidades. Poderíamos fazer centenas de pedidos a quem tem poder para melhorar o país nos próximos 11 anos. Adianto dois: acabem com a impunidade e a guerra civil. Há 48 mil homicídios por ano em nosso país de “índole pacífica”. São 131 mortos por dia. Um deles é Gabriela Araújo, de 8 anos, morta em casa com um tiro na cabeça, na quarta-feira, por um assaltante menor de idade, num condomínio de luxo no Estado mais próspero do Brasil, São Paulo. No ano de 2020, Gabriela faria 19 anos.
Deve ser bom ser jornalista no Brasil. Há sempre alguma denúncia, muitos escândalos e crimes. Esse foi o comentário irônico de um amigo que mora em Paris. Respondi: não, não é bom. Dá uma tremenda impotência perceber que escândalos e crimes caem no vazio e se perdem na rotina da mídia e na memória nacional. Quem sabe Nossa Antena, em 2020, possa ser uma coluna leve, que recomende livros, filmes e exposições. Se o Brasil apostar no desarmamento da sociedade, se não deixar assassinos e corruptos à solta, se a competência e a honestidade vencerem o corporativismo, se castelos virarem iglus, aí a colunista de ÉPOCA terá o prazer de elogiar nossos Três Poderes. E não se indignar com a sucessão de pequenezes impunes que envergonham os cidadãos.
Os órgãos da menina Gabriela serão doados. O crime absurdo e gratuito, diante de sua irmã gêmea e da babá, chocou Rio Claro, a 173 quilômetros da capital paulista. O rapaz que mirou na cabeça de Gabriela tem 17 anos e foi reconhecido pela babá em fotografias. Ele e seu cúmplice entraram na casa armados de pistolas, depois de pular o muro dos fundos do condomínio, com cerca elétrica. A cerca teria falhado e as câmeras não teriam funcionado – o que é suspeito. O alarme da casa disparou, os assaltantes mandaram a babá desligar. Ela disse que não sabia. O de 17 anos teria então atirado intencionalmente nas duas meninas, acertando Gabriela. Os assaltantes fugiram com joias, aparelhos e bijuterias. O assassino já tinha sido detido em janeiro, com armas e capuzes, e liberado. Vinte dias depois, voltou a ser detido por porte de entorpecentes, foi encaminhado à Vara da Infância e Juventude. E novamente liberado. Não dá mais para considerar “crianças inimputáveis” os delinquentes de 16 e 17 anos. Se podem votar, podem ser presos como adultos. Basta? Claro que não. Mas é uma distorção a corrigir.
Dois pedidos para 2020:acabem com a impunidade
e a guerra civil. Por dia, 131 brasileiros são mortos
“A gente rezou lá para ela em volta de uma árvore, e eu peguei um tercinho”, disse uma amiga de Gabriela, Vitória Lucci, antes de divulgarem a morte cerebral da menina.
A população não pode ficar condenada a rezar. A família de Gilmar Rafael Yared, de 26 anos, morto na colisão em Curitiba com o carro do deputado Fernando Ribas Carli Filho – que dirigia embriagado, a 190 quilômetros por hora e com a carteira de habilitação suspensa –, também reza por justiça.
Oram os parentes de Marleide Gomes dos Santos. Sabem quem era Marleide? Tinha 30 anos, estava grávida de cinco meses de gêmeos e foi atropelada e morta na calçada em Osasco, Grande São Paulo, por um motorista embriagado e sem carteira de habilitação. Foi na quinta-feira. Marleide era balconista e voltava do trabalho. Tinha um casal de filhos, de 8 e 6 anos.
No ano de 2020, Gilmar teria 37 anos, e Marleide 41.
Essas tragédias são tão frequentes que podem ser tudo, menos acidentes ou fatalidades. O destino não pode ser culpado. A crueldade, a corrupção e a imprudência são alimentadas pela sensação de viver num país sem lei. Ou num país de leis esquizofrênicas. O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, acaba de negar habeas corpus a uma mulher condenada a dois anos de prisão por ter furtado caixas de chiclete. Juntas, tinham o valor de R$ 98,80. O ministro ponderou que não era “furto famélico” – quando se rouba por fome – e, mesmo insignificante, não merecia perdão.
No ano de 2020, queria escrever sobre a luz de maio. E também desejo muito, até lá, ter dois netos. Meus votos de saúde, paz e justiça para todos.
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http://veja.abril.com.br/200509/p_024.shtml
Lya Luft
A sordidez humana
“Que lado nosso é esse, feliz diante da desgraça alheia? Quem é esse em nós, que ri quando o outro cai na calçada?”
Ando refletindo sobre nossa capacidade para o mal, a sordidez, a humilhação do outro. A tendência para a morte, não para a vida. Para a destruição, não para a criação. Para a mediocridade confortável, não para a audácia e o fervor que podem ser produtivos. Para a violência demente, não para a conciliação e a humanidade. E vi que isso daria livros e mais livros: se um santo filósofo disse que o ser humano é um anjo montado num porco, eu diria que o porco é desproporcionalmente grande para tal anjo.
Que lado nosso é esse, feliz diante da desgraça alheia? Quem é esse em nós (eu não consigo fazer isso, mas nem por essa razão sou santa), que ri quando o outro cai na calçada? Quem é esse que aguarda a gafe alheia para se divertir? Ou se o outro é traído pela pessoa amada ainda aumenta o conto, exagera, e espalha isso aos quatro ventos – talvez correndo para consolar falsamente o atingido?
O que é essa coisa em nós, que dá mais ouvidos ao comentário maligno do que ao elogio, que sofre com o sucesso alheio e corre para cortar a cabeça de qualquer um, sobretudo próximo, que se destacar um pouco que seja da mediocridade geral? Quem é essa criatura em nós que não tem partido nem conhece lealdade, que ri dos honrados, debocha dos fiéis, mente e inventa para manchar a honra de alguém que está trabalhando pelo bem? Desgostamos tanto do outro que não lhe admitimos a alegria, algum tipo de sucesso ou reconhecimento? Quantas vezes ouvimos comentários como: “Ah, sim, ele tem uma mulher carinhosa, mas eu já soube que ele continua muito galinha”. Ou: “Ela conseguiu um bom emprego, deve estar saindo com o chefe ou um assessor dele”. Mais ainda: “O filho deles passou de primeira no vestibular, mas parece que…”. Outras pérolas: “Ela é bem bonita, mas quanto preenchimento, Botox e quanta lipo…”.
Detestamos o bem do outro. O porco em nós exulta e sufoca o anjo, quando conseguimos despertar sobre alguém suspeitas e desconfianças, lançar alguma calúnia ou requentar calúnias que já estavam esquecidas: mas como pode o outro se dar bem, ver seu trabalho reconhecido, ter admiração e aplauso, quando nos refocilamos na nossa nulidade? Nada disso! Queremos provocar sangue, cheirar fezes, causar medo, queremos a fogueira.
Não todos nem sempre. Mas que em nós espreita esse monstro inimaginável e poderoso, ou simplesmente medíocre e covarde, como é a maioria de nós, ah!, espreita. Afia as unhas, palita os dentes, sacode o comprido rabo, ajeita os chifres, lustra os cascos e, quando pode, dá seu bote. Ainda que seja um comentário aparentemente simples e inócuo, uma pequena lembrança pérfida, como dizer “Ah! sim, ele é um médico brilhante, um advogado competente, um político honrado, uma empresária capaz, uma boa mulher, mas eu soube que…”, e aí se lança o malcheiroso petardo.
Isso vai bem mais longe do que calúnias e maledicências. Reside e se manifesta explicitamente no assassino que se imola para matar dezenas de inocentes num templo, incluindo entre as vítimas mulheres e crianças… e se dirá que é por idealismo, pela fé, porque seu Deus quis assim, porque terá em compensação o paraíso para si e seus descendentes. É o que acontece tanto no ladrão de tênis quanto no violador de meninas, e no rapaz drogado (ou não) que, para roubar 20 reais ou um celular, mata uma jovem grávida ou um estudante mal saído da adolescência, liquida a pauladas um casal de velhinhos, invade casas e extermina famílias inteiras que dormem.
A sordidez e a morte cochilam em nós, e nem todos conseguem domesticar isso. Ninguém me diga que o criminoso agiu apenas movido pelas circunstâncias, de resto é uma boa pessoa. Ninguém me diga que o caluniador é um bom pai, um filho amoroso, um profissional honesto, e apenas exala seu mortal veneno porque busca a verdade. Ninguém me diga que somos bonzinhos, e só por acaso lançamos o tiro fatal, feito de aço ou expresso em palavras. Ele nasce desse traço de perversão e sordidez que anima o porco, violento ou covarde, e faz chorar o anjo dentro de nós.
Lya Luft é escritora
A odisseia das entregas
Por Walcyr Carrasco
| 22.04.2009
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Um amigo comprou uma mesa de estilo indiano em uma loja de decoração em um shopping. Queria deixar a sala linda para seu aniversário. A entrega foi prometida para dali a uma semana. Passou. Veio outra semana. Foi reclamar. Tivemos um acúmulo de entregas devido à promoção explicou a vendedora.
Marcou nova data. A mesa não veio. A festa passou. Ele foi falar com a gerente. Veio a mesma explicação. Isso já me foi dito da outra vez ele retrucou. Pode mudar o disco? Vários telefonemas depois, rosnou querendo o dinheiro de volta. A mesa foi entregue no dia seguinte. Quando a vê, ele fica irritado, lembrando-se das discussões.
Também já passei por isso. Certa vez contratei uma senhora para trabalhar em casa. Arrumei um colchonete: Será só por alguns dias. Comprei cama e colchão em uma grande rede. Prometia entrega imediata. Que ilusão! A mulher acordou quebrada durante semanas. Eu brigava, ameaçava. O vendedor se esquivava. A culpa não é minha. É problema do departamento de entregas. Foi você quem me vendeu. Com quem vou reclamar!?
Até em comida chinesa já me dei mal. Uma noite pedi yakisoba. Deram 45 minutos para chegar. Uma hora e meia depois, liguei. O rapaz já saiu, deve estar perto! respondeu a mocinha. Com o estômago ganindo, voltei a chamar após mais meia hora. Houve um problema com o endereço, mas já foi resolvido. Mais noventa minutos e recebi um yakisoba frio, grudento. Dei duas garfadas e resolvi fritar ovos.
O pior, porém, foram duas poltronas que encomendei em uma sofisticada loja de decoração da Alameda Gabriel Monteiro da Silva. Seis meses depois, não haviam aparecido. Foram inúmeras as reclamações. Nove meses mais tarde, a loja ainda tentava amenizar: São poltronas importadas, feitas artesanalmente e… Já deu tempo de nascer um bebê ou construir uma casa. Não foi suficiente para duas poltronas? Lindas, mas quando as vejo eu me lembro de todas as peripécias.
E uma amiga que encomendou um bolo para levar ao trabalho? Como não chegava, foi embora sem ele. Ao voltar, estava derretido. A caixa pingava chocolate na portaria! Ela ainda teve de pedir desculpas! E com um detalhe: todos exigem receber antecipadamente, ou vincular a conta a cartão de crédito ou crediário. Cumprir a sua parte é outra história!
Outra coisa terrível a respeito das entregas é o horário. Uma vez comprei uma máquina de lavar. Durante a negociação, a vendedora foi só sorrisos. Quando me deram a data de entrega, perguntei: Em que horário? Comercial. Eu morava sozinho em uma casa e tinha emprego. Como fazer? Falei com minha chefe. Você quer faltar por causa de uma máquina de lavar? Não posso deixar na calçada. Irritada, ela me deu a permissão. Acordei bem cedo para ouvir a campainha. Passei o dia trancado. Prisioneiro da máquina de lavar. No finzinho da tarde, liguei. O caminhão teve um problema, a entrega será amanhã durante o horário comercial ouvi de volta. Ahhhhhhhhhhhh! Não podia faltar de novo. Recorri a uma vizinha que mal conhecia. Quando cheguei, a máquina estava no meio da sala. E lá continuou até eu encontrar alguém para me ajudar a carregá-la! Mesmo hoje, em apartamento, não me sinto à vontade para deixar as chaves na portaria. E nunca me fornecem um horário de entrega pelo menos aproximado.
Fala-se muito em crise. Mas eu vejo meu exemplo. Prefiro deixar de comprar ao stress que algumas empresas já me causaram. Sem dúvida, também existe uma crise de respeito ao comprador.
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Ops… Desculpe, foi engano
Por CÉLIA LEÃO
Já faz alguns anos que descobri que tenho uma xará que, assim como eu, também tem outros sobrenomes entre o Célia e o Leão. Minha xará é uma parlamentar do estado de São Paulo que trabalha, e trabalha muito, mas, de vez em quando, acaba por receber em sua caixa de e-mails dúvidas de etiqueta que deveriam ser endereçadas a mim — confusões que ocorrem por causa do nome. E, em todas as ocasiões que isso acontece, ela sempre encaminha o e-mail para a minha caixa postal e envia também uma simpática resposta ao remetente, avisando-o sobre o engano e contando-lhe também sobre as providências já tomadas. Isso me encanta e, por sorte, já fui apresentada a ela e pude agradecer-lhe pessoalmente por todo o bom humor com o qual encara a situação.
Por causa disso, passei a prestar mais atenção nas atitudes das pessoas quando os enganos acontecem. Umas, muito mal-humoradas, se esquecem de que fazem parte do time da empresa e que enganos de ramais acontecem: simplesmente comunicam a quem está do outro lado da linha que o ramal em questão não é o da pessoa com a qual você quer falar e desligam. Quanta falta de savoir-vivre e de espírito de equipe. Assim, esteja ciente de que enganos de fato acontecem. E que errar é humano e mais comum do que se pensa. Seja compreensivo e, se tiver à mão a lista com os ramais da empresa, avise à pessoa qual é o número do ramal procurado. Seu interlocutor vai passar a enxergar a sua empresa de um jeito diferente e cheio de admiração.
Se você receber um e-mail endereçado a outra pessoa, não deixe o remetente sem resposta. Encontre um tempinho para avisá-lo sobre o engano cometido. Ninguém pode avaliar quão urgente e importante é aquele assunto. Vivemos tempos atribulados, mas nada justifica que nos embruteçamos. Devemos evitar o risco de um dia termos de negociar com uma pessoa com a qual fomos indelicados. Pense nisto na próxima vez que atender a uma ligação que não é para você.
Célia Leão é autora de Boas Maneiras de A a Z (Editora STS) e consultora de etiqueta empresarial. etiqueta@abril.com.br
http://veja.abril.com.br/070109/p_102.shtml
J.R. Guzzo
Ideias mortas
“Não temos um serviço público capaz de prestar serviços ao público. Mas se há alguma coisa que temos de sobra, em praticamente qualquer área da atividade humana, são ‘políticas públicas’”
Os países desenvolvidos do mundo podem estar na frente do Brasil em muita coisa, mas perdem de longe em pelo menos uma: nossa capacidade de criar “políticas públicas”. Faltam ao Brasil redes de esgoto, água tratada, coleta de lixo, transporte público, portos, ferrovias e estradas asfaltadas. Faltam aparelhos de raios X em hospitais, sistemas para conter enchentes e escolas capazes de ensinar a prova dos noves. Não temos confiança em políticos, juízes e autoridades em geral. Não temos um serviço público capaz de prestar serviços ao público. Mas se há alguma coisa que temos de sobra, em praticamente qualquer área da atividade humana, são “políticas públicas”, quase sempre descritas como as “mais avançadas do mundo”; é difícil entender, francamente, por que os demais 190 países que repartem a Terra conosco ainda não copiaram todas elas.
Ninguém ignora que o Brasil conta com o que há de mais moderno no planeta em matéria de proteção ao menor abandonado, direitos humanos (nossos assassinos, por exemplo, têm o direito de cumprir apenas um sexto das penas a que forem condenados), defesa do meio ambiente e legislação de trânsito. Temos o melhor modelo mundial não só de reforma agrária, mas também de reforma aquária, como nos garantiu tempos atrás o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não há quem nos supere em leis de proteção ao trabalhador, ao deficiente físico e aos direitos do consumidor – e por aí afora, numa lista que não acaba mais. É verdade que funcionários do Incra, repartição pública encarregada de aplicar a reforma agrária, vivem sendo presos por corrupção, que os menores começam a matar gente cada vez mais cedo e que o trânsito nas grandes cidades é uma piada. Mas aí também já seria querer demais – não se pode exigir que este país, depois de toda a trabalheira que teve para montar políticas tão admiráveis, seja também obrigado a mostrar que elas produzem resultados práticos.
O ano de 2008 se encerrou com mais dois grandes momentos na história da criação de “políticas públicas” para o Brasil. O primeiro desses feitos é a Estratégia Nacional de Defesa, uma coleção de planos que vão dar ao Brasil, como nas áreas citadas acima, uma nova oportunidade de se colocar entre os países “mais avançados” do mundo. É perfeitamente correta, no caso, a ideia de melhorar o equipamento das Forças Armadas; não adianta nada dar a elas uma missão e não dar os meios. Mas, junto com providências possivelmente racionais, indispensáveis ou urgentes, vem todo um tropel de desejos tumultuados – a transformação do Brasil em potência militar, o desenvolvimento de caças de quinta geração, a criação do “soldado do futuro”, taxas a ser pagas por empresas que seriam beneficiadas pela ação das Forças Armadas e até um submarino nuclear, no qual a Marinha trabalha desde 1979 e que ficará pronto, se tudo correr bem, no remoto ano de 2024. Por qual motivo o Brasil precisaria, por exemplo, de um submarino nuclear? Fala-se vagamente, em voz baixa e linguagem obscura, em “ganhos de tecnologia”. Mas daí não se passa – talvez por se tratar de um segredo de estado, talvez porque não haja mesmo ninguém, no governo, capaz de explicar isso de forma coerente. O presidente Lula disse que é preciso defender a Amazônia e o petróleo das águas profundas. Muito justo, mas os principais inimigos da Amazônia, até hoje, têm sido os próprios brasileiros e seu principal problema, a pobreza, também é de criação puramente nacional; quanto ao petróleo, ninguém atacou até hoje as plataformas em alto-mar para roubar as riquezas da Petrobras, desde a perfuração do primeiro poço na Bacia de Campos, trinta anos atrás. Não há sinal de mudança em nenhuma dessas duas realidades.
O segundo grande momento foi a finalização do Plano Nacional de Cultura, que, segundo o governo, vai desenvolver as “políticas culturais” do Brasil nos próximos dez anos, com o fortalecimento da ação do estado na área cultural, “participação social” em sua gestão e outras ameaças parecidas. Mas, segundo o ministro da Cultura, Juca Ferreira, o plano se baseia em “300 diretrizes” – e a partir daí não vale a pena dizer mais nada. Não existe neste mundo projeto algum que precise de 300 diretrizes para funcionar e, caso existisse, não haveria governo capaz de aplicá-las. Não o brasileiro, com certeza.
No mais é esperar que a habitual combinação de inépcia, preguiça e burocracia da máquina estatal leve o grosso do plano para o depósito geral das ideias mortas. Nessas horas a incompetência do poder público é uma verdadeira bênção.
http://vejasaopaulo.abril.com.br/revista/vejasp/edicoes/2090/nao-funciona-407449.html
Não funciona
Por Ivan Angelo
| 10.12.2008
Você, uma pessoa alerta, cautelosa, acha que não corre o risco de atropelamento. Ilusão. Paga um convênio médico de 1 500 reais que lhe dá o direito de atendimento rápido nos melhores hospitais da cidade. Isso também pode falhar.
Um afilhado meu deixou o carro no estacionamento do Expo Center Norte e atravessava, na faixa de pedestres, a movimentada rua interna do conjunto, ao lado de um amigo. À distância de uns 50 metros, um sinal de trânsito abriu. Os carros deveriam aproximar-se devagar, esperando as pessoas atravessarem a faixa. Um automóvel avançou em velocidade imprudente e invadiu o espaço das pessoas. Faixa de pedestres nem sempre funciona eu sei, tu sabes, ele sabe. Meu afilhado só teve tempo de saltar, bateu o pé no capô do carro, foi carambolado para o teto do veículo, resvalou de cabeça para baixo pela lateral em direção ao chão, bateu no asfalto com mãos e braços protegendo instintivamente a cabeça, mas despedaçando o cotovelo esquerdo: ossos expostos, braço pendurado ao antebraço pelo músculo. A motorista só foi parar uns 100 metros adiante, porque havia na área carros da CET e do Corpo de Bombeiros.
O atropelado, tomado pela dor e desespero, deitado na via pública, cabeça amparada por um desconhecido, pedia aos gritos que o levassem “para o Einstein”. A esposa, avisada por telefone, foi para o hospital, a fim de apressar o envio de uma ambulância. Não pode, ambulância de hospital particular não pega atropelado na rua. O Resgate, dos bombeiros, podia levar.
Leva, mas não para o Einstein não é assim que funciona. Só pode levá-lo para um hospital público da região do acidente. A central de vagas hospitalares consegue um em Santana, particular. O atropelado urra de dor, grita impropérios, com o braço preso a uma alça do teto do Resgate. O bombeiro quer que ele se controle, ele grita, tapam-lhe a boca com um chumaço de gaze e ele, sufocado, escolhe calar-se.
No hospital de Santana, começa o atendimento: profilaxia, analgésico, antibiótico, tomografia, raio X. A esposa quer que a cirurgia seja feita no Einstein, pede que o transfiram. Não é assim que funciona. O hospital de Santana não pode assumir essa transferência, ele teria de ser apanhado por um médico do outro hospital numa outra ambulância. O atendimento do plano de saúde informa que não há vaga no Einstein.
Planos de saúde não funcionam. Nós sabemos, vós sabeis, eles sabem. “Ora, por que não fazem a cirurgia em Santana mesmo?” Uma delicada cirurgia ortopédica, com ligamentos rompidos, a vítima correndo o risco de perder o movimento do braço. O Einstein só teria vagas programadas para operados do seu centro cirúrgico. Recorreram a um irmão do atropelado em Belo Horizonte, que conhece um médico do hospital desde os tempos em que eram estudantes em São Paulo, quem sabe ele…
A esposa foi para Santana e o amigo para a delegacia, fazer a queixa. Por que a motorista avançou sobre pedestres na faixa? Teria bebido? (Não foi feito o teste.) Distração? Celular? TPM? Delegacias não funcionam, não apuram essas coisas. Fazem boletins de ocorrência, para duelos de advogados.
Surgiu a vaga no Einstein. O.k., mandem a ambulância, pede a esposa. Não, não é assim que funciona. O convênio médico não paga ambulância. Como não paga? Não faz parte do atendimento? Não, não faz. Ambulância do serviço público? Vai demorar. E o ferido lá, passadas quatro horas, deitado em maca fria de metal, dor sobrepondo-se ao analgésico.
A esposa autoriza ambulância particular, 2 000 reais. O trânsito é lento na sexta-feira chuvosa. O médico aplica uma dose poderosa de morfina. Por que não ligam a sirene, para irem mais rápido? Não pode; agora, sirene só em caso de risco de morte. Sofrimento não conta. A morfina faz efeito, o atropelado relaxa e sorri pela primeira vez. Só foi operado seis horas depois do acidente.


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