Um Dia em Setembro (One Day in September), documentário de Kevin Mcdonald, vencedor do Oscar de 2000. Fantástico, mostra o assassinato dos 11 atletas israelenses na Olimpíada de Munique, em 1972. Mostra falhas imperdoáveis e as sujeiras nos bastidores do seqüestro, além de uma entrevista com o único terrorista sobrevivente (cinco morreram na malsucedida operação de resgate, dois caçados pelo Mossad, que matou também outros dois suspeitos de serem os cérebros por trás da operação); tem entrevista com mãe e filha (recém-nascida a época) e filmes da família do esgrimista Andre Spitzer, o que dá um tom mais pessoal e trágico ao documentário.C
Sujeiras:
1. Os alemães orientais mostraram aos seus aliados palestinos a Vila Olímpica (reconhecimento prévio).
2. A imprensa recebeu noticias do fim do resgate avisando que os atletas tinham sido salvos (morreram todos, exceto o atirador que fugiu para onde ficavam hospedados os romenos do tiro). Imaginem a dor das famílias ao receber o desmentido!
3. O comitê olímpico suspendeu por pouquíssimo tempo os jogos e depois deu continuidade a eles; deveria tê-los cancelado! Pelo menos, não houve cerimônia de encerramento, só musica fúnebre.
4. Esta é nova, parece que foi revelada no documentário: poucos meses apos o evento, o governo alemão soltou os três terroristas presos ao final da operação, numa troca por um avião alemão seqüestrado. O que o documentário revela, e que um general alemão entrevistado afirmou que poderia ser verdade, é que o seqüestro foi uma armação: parece que havia apenas 13 passageiros no avião seqüestrado; não havia mulheres e crianças; a negociação foi rapidíssima. Com isto, o governo alemão estava dando uma moeda de troca para se prevenir contra futuros atentados palestinos em seu território.
Besteiras da tragicomédia:
1. Os israelenses, especialistas em contraterrorismo, foram proibidos pelos alemães de participar do resgate.
2. O Exercito alemão, pelo que era previsto pela Constituição alemã do pós-guerra, não poderia participar (“caxias” demais, não?). Estudos daqui, estudos dali e foi decidido que quem poderia participar como atiradores de elite próximos ao prédio onde estavam as vítimas e captores seriam apenas os guardas de fronteira. O pior: nenhum deles era bom atirador, quanto mais de elite.
3. Os atiradores “de elite” postados nas imediações do prédio foram flagrados pelos cinegrafistas da televisão da Alemanha Oriental, o que acabou por expô-los e forçar sua retirada.
4. No aeroporto onde os helicópteros deixaram terroristas e cativos, os atiradores de elite (desta vez eram mesmo) estavam em número insuficiente (só 5, contra 8 terroristas, já que o numero destes só foi descoberto em cima da hora – por que não deixaram mais atiradores posicionados?), tinham armas inadequadas, não tinham sua posição conhecida pelos policiais que se juntaram à operação (o que fez com que dois atiradores fossem confundidos com terroristas e gravemente feridos) e não estavam bem posicionados (um deles ficou um tempão sem poder atirar e só o fez uma vez, pelo menos atingindo seu alvo).
5. Esqueceram de enviar previamente ao aeroporto os blindados de apoio; quando o fizeram, as estradas estavam congestionadas por curiosos, pessoal da TV, etc. Claro que eles chegaram com atraso. Fogo cruzado, ninguém sabia das posições, nem que eram 8, então só levaram 5; armas inadequadas.
6. A falsa tripulação (composta de policiais para o resgate) que estava no avião que pretensamente levaria os terroristas e atletas para fora da Alemanha debandou, parece que assustada com a hipótese de morrer no confronto com os terroristas; o avião vazio despertou a suspeita por parte dos criminosos e deve ser o que deflagrou o confronto.
7. Tudo isto acima levou a um tiroteio de 2 (isto mesmo, duas) horas, durante as quais os atletas, amarrados pelos pulsos e uns aos outros, ficaram sem ação e foram mortos nos dois helicópteros onde estavam (um atingido por granadas, o outro por rajadas de metralhadora).
Resultados:
1. Famílias arrasadas, ainda mais por terem nutrido falsas esperanças.
2. Os alemães mostraram como eficiência e obediência irrestrita as regras às vezes não funcionam; pelo contrario, desta vez esta obediência teve mais a ver com estupidez.
3. Os palestinos conseguiram o que queriam: atrair o foco da atenção mundial para seu problema.
4. Os alemães montaram uma equipe anti-seqüestro (se não me engano, o general entrevistado e que critica severa e ironicamente o desenrolar da ação de resgate, era o chefe desta equipe).
5. As Olimpíadas de Munique, feitas para tentar minimizar a associação da Alemanha ao nazismo, deixaram outro tipo de lembrança, não menos pesada (e foi demais perceber que os policiais alemães que corriam pra la e pra cá usavam capacetes iguais aos dos nazistas).
6. Seria cômico, se não fosse trágico – os alemães fizeram papel de palhaços e gravaram para sempre, nos registros da História, um exemplo de incompetência absoluta.
Avaliação: IMPERDÍVEL!