Uma Ponte Longe Demais (A Bridge Too Far), épico de guerra de Richard Attenborough, 1977. C
Enredo: Baseado no livro de Cornelius Ryan, o filme trata da “Operação Mercado-Jardim” (“Mercado” referia-se aos paraquedistas e “Jardim”, ao ataque por terra) de 1944, através da qual os aliados, entusiasmados com o sucesso da operação de desembarque na Normandia, pretendiam, com a tomada de uma série de pontes na Holanda, alcançar e destruir a região industrial alemã, no vale do Ruhr. O caminho passava por várias pontes, entre elas a valiosa ponte sobre o rio Arnhem, que dá o título ao filme.
A idéia foi do Marechal Montgomery (“Monty”), que, por meio da influência política, forçou o seu superior, o General Eisenhower – o Comandante das forças aliadas – a apoiá-lo e a preterir os planos de seu rival, o General Patton. Como se percebe desde o início do filme, deixar a estratégia política vencer a militar foi uma péssima idéia.
Erro: não acreditar nos informes da resistência holandesa de que os alemães concentravam muitas tropas para defender a região e basear-se no otimismo gerado pelo Dia D.
Erro: o Tenente-General Browning (Dirk Bogarde), responsável pela operação, insistir em prosseguir mesmo com fotografias aéreas (“poucas fotos”, segundo ele) que mostrando da existência de tanques alemães camuflados na região. Em vez disto, e já cansado de tanto ter que adiar a operação, prefere colocar o responsável pelo levantamento aéreo, Major Fuller (Frank Grimes) “de molho” a fim de evitar a disseminação de possível pessimismo. Aliás, nem o general alemão Model (Walter Kohut) acreditava que os aliados seriam ousados (ou tolos) a ponto de atacar a considerável concentração de tropas, até porque a localidade não oferecia nenhum interesse estratégico. Daí a recusa de Model em explodir as pontes para segurar os aliados.
Erro: acreditar que o exército alemão era formado de crianças e velhos, como se difundia entre os aliados (apesar de que, em certo momento do filme, as crianças aparecerão). Na verdade, as melhores tropas nazistas estão estacionadas na região, comandadas pelo Tenente-General Bittrich (Maximilian Schell) e pelo Major-General Ludwig (Hardy Kruger), que vão segurar Arnhem a qualquer custo – eles preferem explodir as pontes para segurar só aliados, mas Model não concorda, insiste que os aliados não ousariam atacar as pesadas forças nazistas com paraquedistas e que não há nada de importante a ser conquistado na região.
E não foi por falta de experiência prévia, pois os próprios “Jerrys” (nazistas) haviam sido massacrados ao tomar Arnhem, em 1940.
A operação tem vários riscos: mudanças de tempo podem prejudicá-la imensamente, o entrelaçamento entre os diversos pontos de ataque aliado deve ser preciso, uma falha pode provocar o fracasso de toda a operação.
O início da operação aparentemente corre bem, e os alemães recuam muito mais rapidamente do que os aliados podem avançar, já que faltam aos aliados suprimentos, estradas livres e aviões suficientes para lançar todos seus paraquedistas.
A partir de então, acompanhamos o desenrolar de algumas histórias:
O major-general polonês Sosabowski (Gene Hackman), um homem de visão, que percebe estar colocando seus homens numa operação perdida, mas que prefere manter silêncio e ir adiante, é impedido pelo fog inglês.
O Brigadeiro-General Gavin (Ryan O’Neal), temeroso (com razão) com os relatos de seu ajudante-de-ordens holandês (Peter Faber) sobre as condições que seus paraquedistas irão encontrar, sobretudo por tratar-se de ataque à luz do dia, o que os torna mais vulneráveis. E os jipes, tanques e barcos de apoio não chegam.
O coronel Urquhart (Sean Connery), que descobre que vai saltar a muitos quilômetros de Arnhem e ter que se locomover a pé até o difícil alvo. Para piorar, ao chegar ao solo holandês, percebe que os rádios estão com cristal errado e não fornecem comunicação aos jipes que não chegam. Logo é cercado e a munição vai escasseando.
O Tenente-Coronel Horrocks (Edward Fox) será a “cavalaria” que irá em socorro dos paraquedistas – se tiver recursos para tal.
A guarda irlandesa, comandada pelo Tenente-Coronel J. O. E. Vandeleur (Michael Caine), que chega com tanques para depois alcançar e dar suporte aos paraquedistas, criar cortinas de fumaça; mas ele mesmo é logo atacado pelos alemães.
Os paraquedistas do Tenente-Coronel Frost (Anthony Hopkins), que tem a inglória tarefa de tomar a ponte de Arnhem com rifles e algumas armas antitanque; eles testam as forças inimigas, apenas para descobrir que elas são muito mais bem armadas que eles.
O coronel Stout (Elliot Gould), cuja missão é tomar a ponte do Rio Son – e a vê sendo explodida à sua frente…
O Major Julian Cook (Robert Redford) que não tem os barcos necessários à travessia do rio para tomar Nijmegen.
Avaliação: É um prazer escrever sobre este filme, um dos melhores que já vi, certamente o melhor filme de guerra. Já o vi duas vezes e meia (a metade do filme na TV eu já tinha perdido). A empolgante trilha sonora de John Addison ajuda a manter o clima, que é arrepiante desde os primeiros minutos de suas quase 3 h (muito rápidas!). Nunca vi tantos astros juntos num filme tão bom. Mesmo sabendo o final do filme, como no “Operação Valquíria”, há um suspense sobre o desenrolar das operações. Há dramas muito bons – em particular, refiro-me à promessa do Sargento Eddie Dohun (James Caan) em levar seu capitão (Nicholas Campbell) com vida de volta aos EUA (com um final surpreendente). Detalhes primorosos, desde a descida dos paraquedistas até as operações em terra.
Diálogos afiadíssimos, com destaque para as frases ácidas do general polonês interpretado por Gene Hackman (ótimo), são o toque tragicômico do filme (quando ele vê que está “no mato sem cachorro”, diz ao seu superior inglês “Só queria ter certeza de que lado o senhor está” ou quando ele exige uma carta do general Browning dizendo que ele, Sosabowski, está executando o plano mesmo estando em desacordo com ele, para o caso de seus homens serem massacrados. Ele mesmo dispensa a carta: “Em caso de sermos massacrados, de que ela adiantaria?”). Elliot Gould é o outro que confere um caráter mais “light” ao filme.
E o Major Harry Carlyle (Christopher Good), sempre com seu guarda-chuva na mão e alto astral, e a surreal negociação da rendição com os alemães (rendição de quem para quem?).
Mais uma afiada: Browning consola Urquhart dizendo que este fez tudo o que podia. “Mas, e os outros, fizeram?”.
No final, ficou difícil arrumar um culpado: a estrada para Nijmegen, a tomada de Nijmegen, o fog inglês?