Passageiros (Passengers)

Passageiros (Passengers), suspense dramático e de ficção científica de Morten Tyldum (de O Jogo da Imitação), 2016.

ENREDO: Num futuro distante, o planeta-colônia Homestead recebe moradores da Terra que se dispõem a viajar em hibernação por 120 anos, sabendo que, na chegada, seus entes queridos na Terra estarão mortos. Se isto já uma sensação angustiante, o que dizer de acordar faltando 90 anos para o encerramento da viagem? E é o que ocorre com Jim Preston (Chris Pratt, da refilmagem de Sete Homens e um Destino) e Aurora Lane (Jennifer Lawrence, da cinessérie Jogos Vorazes), vítimas de uma falha do sistema de casulos e que agora enfrentam a perspectiva de envelhecerem, morrerem e não alcançarem seu destino, tendo apenas a companhia um do outro. Bom, e também do simpático e educado androide barman Arthur (Michael Sheen, de Frost/Nixon).

AVALIAÇÃO: A premissa é sensacional: o que você faria se soubesse que iria ficar sozinho por 90 anos numa viagem onde até uma mensagem demora dezenas de anos para alcançar o ser vivo mais próximo? Mais ainda, essa angústia é agravada por um pesado segredo que um dos protagonistas guarda (e que é a cereja do bolo do filme). E, para que não se diga que o filme abandona as receitas clássicas do suspense no espaço, há a possibilidade de uma pane na nave resultar em tragédia.
Morten Tyldum, diretor do excelente Jogo da Imitação, emplacou mais um grande suspense dramático, contando ainda com a excelente química entre Chris Pratt e Jennifer Lawrence.

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Sully: O Herói do Rio Hudson (Sully)

Sully: O Herói do Rio Hudson (Sully), suspense dramático de Clint Eastwood, 2016.

ENREDO: 15 de janeiro de 2009. O capitão Chesley “Sully” Sullenberger III e seu copiloto Jeff Skiles (Aaron Eckhart) mal decolam seu Airbus A320 de Nova Iorque e colidem com um bando de pássaros, perdendo empuxo nas duas turbinas. Eles devem escolher entre pousar no aeroporto LaGuardia ou no de Teterboro. Mas o experiente Sully, ex-piloto militar, decide que não há tempo e que devem planar e pousar no gélido Rio Hudson, o que salva as 155 vidas do avião e leva o discreto Sully a ser saudado pela imprensa e pelo público americano como herói.
Para Sully, respaldado inteiramente pelo seu copiloto, foi a melhor saída possível para um evento inédito até para o manual do avião. Já o rigoroso NTSB (órgão americano que averigua os acidentes aéreos na viação civil) e as simulações da Airbus indicam que ambos os aeroportos teriam sido boas opções e há indícios de que uma turbina ainda estivesse operando. Se for provado que houve erro de avaliação, a carreira de piloto bem como a firma de perícia de Sully serão enterradas (e sem direito a aposentadoria…). Para agravar, sua mulher (Laura Linney) não tem boas notícias sobre as hipotecas da família.

AVALIAÇÃO: O suspense do filme não reside no fim do voo, já que se sabe desde o início que o “brace for impact” não teve como consequências mais que alguns poucos feridos sem gravidade. São a investigação e a potencial ruína da carreira de Sully que conduzem a trama.
Tom Hanks é a cara de Sully e transmite com maestria o sangue frio e a discrição, características atribuídas ao piloto. E tem em Aaron Eckhart um ótimo parceiro de atuação.
E, mais uma vez, o conselho de se ficar até os créditos finais, para apreciar alguns momentos com o verdadeiro Sully, também autor do livro que deu origem ao filme.

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A Chegada (Arrival)

A Chegada (Arrival), suspense dramático de ficção científica de Dennis Villeneuve, baseado no conto “História da Sua Vida”, de Ted Chiang. 2016.

ENREDO: “Se você pudesse ver toda sua vida do início ao fim você mudaria as coisas?”, reflete Louise Banks (Amy Adams), enquanto repassa o curto tempo que teve ao lado da filha até perdê-la para uma doença incurável. De volta à realidade, a professora de linguística está mais uma vez diante de uma plateia escassa, que mal lhe dá atenção quando ela vai explicar “por que o português soa diferente de qualquer outra língua românica”. Mas hoje há uma razão especial para a perda de foco: o mundo prende a respiração para saber qual a intenção das doze gigantescas naves espaciais que pousaram em diversos pontos do planeta e que ainda não fizeram contato… exceto por alguns misteriosos sons, que ela logo é convocada a decifrar por um coronel do exército americano (Forest Whitaker, Oscar por O Último Rei da Escócia). Juntamente do físico Ian Donnelly (Jeremy Renner, de Guerra ao Terror e da cinessérie Jason Bourne) e de cientistas dos outros países que “hospedam” as naves, ela deverá descobrir o mais rapidamente possível quais as intenções dos visitantes, antes que militares mais belicosos ataquem os extraterrestres. A comunicação (ou a falta de) pode ser a chave de tudo e Louise sente que é hora de arriscar um contato mais próximo…

AVALIAÇÃO:Outra envolvente interpretação de Amy Adams, de Trapaça, Grandes Olhos, Julie & Julia e Dúvida neste filmaço, tão empolgante quanto seus “primos” Interestelar e Gravidade, e que tem suspense e drama cativantes e uma genial revelação ao final (e não importa que você a capte antecipadamente, pois você já estará preso à trama).
A linguística (sim, sim, houve consultoria de especialistas) é responsável pelo desvendamento do mistério e, mesmo que não se entendam todas as tecnicalidades, não há problema.
O filme é na maior parte do tempo um tanto escuro – e por vezes claustrofóbico –, mas isto é mais que compensado pelo enredo, pela bela paisagem da maravilhosa casa onde vive a protagonista, pela trilha de Jóhann Jóhannsson e pela triste e arrepiante “On the Nature of Daylight”, de Max Richter, que abre e fecha o filme.

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A Grande Fome de Mao (La Grande Famine de Mao)

A Grande Fome de Mao (La Grande Famine de Mao), documentário histórico de Patrick Cabouat e Philippe Grangereau, 2011.

ENREDO: Após tomar o poder na China em 1949, o “Grande Timoneiro” Mao procurou seguir os passos de Stalin, a começar pela coletivização das propriedades e dos meios de produção, para então conseguir aumentar a produção de alimentos. Emprestando técnicas e verbas soviéticas, Mao sacrificou o interior do país e tornou os camponeses peças de uma grande máquina produtiva – ou melhor, improdutiva –, sacrificando sua individualidade em prol da construção de uma “grande nação” e da luta contra os “imperialistas” americanos e de Taiwan. O fim da individualidade ia ao ponto de determinar a separação de homens e mulheres como em quarteis, a proibição do sexo para os casais e a obrigação do uso do refeitório coletivo. A comida era adquirida por “mérito”: os mais fracos e os que produziam menos eram castigados com a fome.
Em 1953, Stalin morreu e, em 1956, Kruschev revelou seus crimes ao mundo – e alertou Mao para o fracasso da coletivização, que, contrariamente ao que pretendera Stalin, não havia servido para os soviéticos ultrapassarem a produção americana de alimentos. Mas Mao não se deixou abater e, não somente persistiu com sua fórmula na agricultura como “coletivizou” também a siderurgia. Propôs-se a, em 15 anos, ultrapassar a produção de aço do Reino Unido, e conseguiu absurdos tragicômicos: a destruição de vasta quantidade de árvores, panelas e maçanetas para uso nos fornos, que geraram apenas aço de péssima qualidade.
Na agricultura, o mau planejamento gerava erros como a destinação de terras inadequadas aos plantios desejados e cotas inatingíveis. Se inatingíveis na pratica, eles eram alcançadas no papel: para vencer outras regiões, líderes falseavam resultados, por exemplo, jogando palha sob o trigo, para aumentar o volume. Oras, se a produção era teoricamente maior, a cota regional para envio para “pagamento de dívidas” do governo central também o era e, desta forma, somente sobrava a palha para consumo local. Resultou disto que, durante o auge da fome, nos quatro anos do teimoso “Grande Salto Adiante” (1958-1962), grassaram a morte por inanição, canibalismo, “reciclagem” de corpos (desenterrados para serem transformados em adubo), cadáveres espalhados ao longo de estradas; os líderes locais eram donos da vida e da morte, prejudicavam desafetos, trocavam comida por sexo e puniam cruelmente qualquer forma de furto de alimentos.
Enquanto isso, os poucos ocidentais que vinham ao país eram enganados com farsas que de campos férteis e povo sorridente e bem alimentado (ironicamente, até futuro presidente francês François Miterrand escreveu um artigo elogiando os programas de Mao).
Em 1962, Liu Shaoqi, o terceiro homem mais poderoso do país, foi eleito presidente e, em viagem à sua terra natal, descobriu a farsa de Mao, passando a criticar a si e aos demais líderes. Logo pôs-se a desfazer o programa do “timoneiro” e tentar desfazer os estragos. Mas, em 1966, temendo os que lhe pudessem fazer sombra, Mao iniciou a Revolução Cultural, sob a pretensão de atacar os “burocratas do partido”. O Grande Salto Adiante havia sido enterrado, mas outra calamidade se abateria sobre o país, e ela duraria até a morte do sanguinário ditador, em 1976.

AVALIAÇÃO: 50 anos depois do que talvez tenha sido o maior genocídio do século XX, ainda é tabu na China discutir a “Grande Fome” provocada pelo ditador Mao Zedong (ou Mao Tse Tung). Mas este documentário não deixa passar a oportunidade de examinar o assunto com profundidade e revelações surpreendentes. Entre 1958 e 1962, foram 25 milhões de mortos? 36? 48? 55? Muitos documentos foram destruídos, prejudicando uma estimativa correta. Mas, se o último número for o correto, Mao terá conseguido ultrapassar Hitler. E já deixou bem para trás o Holodomor ucraniano (“extermínio pela fome” provocado por Stalin anteriormente ao de Mao).
Além dos impressionantes relatos dos estragos deixados por Mao, são revoltantes as cenas do povo tendo que mostrar uma falsa felicidade e das crianças sendo doutrinadas desde cedo para o ódio aos “imperialistas” (assim como os palestinos do Hamas e o Estado Islâmico/Daesh fazem atualmente com as crianças sob seu jugo).
O documentário é essencialmente baseado nos documentos que puderam ser resgatados e em depoimentos de sobreviventes do Grande Salto Adiante e de dois pesquisadores, o historiador holandês sediado em Hong Kong Frank Dikötter e o jornalista chinês (e membro do PC) Yang Jisheng, que, para explicar por que escreveu a respeito do assunto em seu livro “Lápide” (“墓碑”), explica de forma magistral: “Se uma nação não pode encarar sua história, ela não tem futuro”. Uma lição imperdível sobre como uma liderança pérfida pode rapidamente levar uma nação à catástrofe.
http://www.chinesja.com.br/2016/08/grande-fome-de-mao-documentario.html.

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Sobrevivi ao Holocausto

Sobrevivi ao Holocausto, documentário dramático e biográfico de Marcio Pitliuk e Caio Cobra, 2014.


ENREDO: Passado dos 90 anos, o ainda ativo Julio Gartner, polonês de origem judaica e um dos últimos sobreviventes do Holocausto, viaja com a jovem Marina Kagan para revisitar os locais onde viveu até os 15 anos, onde esteve cativo e, finalmente, por onde passou enquanto se recuperava dos sofrimentos físicos causados pelos 6 anos de perseguição e torturas diárias a que foi submetido, assim passando por Polônia, Áustria, Itália, França até voltar ao Brasil. Ele visita, por exemplo, Plaszow, povoado nos arredores de Cracóvia que recebeu um campo de concentração e para onde eram levados os judeus que sobreviveram ao extermínio do Gueto de Cracóvia, na Polônia; esse campo, dirigido pelo carniceiro Amon Göth, foi retratado no filme “A Lista de Schindler”.
Julio Gartner passou, entre outros, por Auschwitz e Mauthausen, locais que revisita, assim como a fazenda onde ficou escondido por alguns meses – até decidir se juntar ao seu irmão no gueto de Cracóvia – e onde reencontra o proprietário atual, que reconhece em Julio o judeu que abrigara.
Em meio a estas visitas, ele narra aquilo pelo que passou em cada lugar. Por exemplo, na Áustria, ele carregava inutilmente pedras morro acima, apenas para ter que carregá-las novamente morro abaixo, tal qual o mitológico castigo de Sísifo. Era a ideia nazista de humilhar física e moralmente para então chegar à aniquilação dos judeus.

 

AVALIAÇÃO: Brilhante projeto de Marcio Pitliuk, a filmagem nos leva a uma excursão de três semanas, onde vemos um Julio Gartner que não consegue expressar através de lágrimas seus sentimentos (e ele só veio narrar suas experiências em 2007), mas que, com uma narrativa muito objetiva, nos dá uma noção (noção! Porque algo além disso somente os que passaram pela experiência podem ter) do que significa ter sido prisioneiro dos nazistas. Cabe à jovem Marina Kagan, com aproximadamente a mesma idade que Julio tinha ao fim da guerra (22 anos), expressar os sentimentos que decerto são os da plateia que assiste a este dramático relato.
Eu temia não suportar a narrativa, mas ela acaba soando mais didática que dramática (ainda bem!) e, do jeito que é levada, o tempo flui quase sem ser percebido.
Vejam mais em http://www.sobrevivi.com.br/sobre.html

 

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Veja SP – Seja o crítico

Album de Familia - comentario de Roberto Blatt na Veja SP 29jan14
Seja o critico - Veja SP 20ago14 - Juntos e Misturados

Seja o critico - Veja SP 22abr15 - Risco Imediato

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Foxcatcher (Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo)

Foxcatcher (Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo), drama biográfico de Bennett Miller, 2014.

ENREDO: Os pais de David “Dave” e Mark Schultz (Mark Ruffalo e Channing Tatum) divorciaram-se quando eles eram muito novos. Dave, um ano mais velho, era não só o treinador, mas também a figura paterna para Dave e, em 1984, ambos se tornaram medalhistas de ouro olímpicos em luta greco-romana.
John Eleuthère du Pont, herdeiro do império que leva seu nome, criou na fazenda da família um grande centro de treinamento e montou a Foxcatcher, uma equipe de luta greco-romana. É um esporte que ele venera, mas que a mãe (Vanessa Redgrave) despreza como “baixo” – ela prefere os cavalos de competição da família… que John despreza. Mas, por mais que ele procure se afastar da presença dominadora da mãe, John vive bem próximo a ela e tenta de toda maneira mostrar-lhe que tem valor. Formar um campeão olímpico para 1988 seria a grande oportunidade para tal.
Mark tinha carência de um pai e John poderia supri-la. Mark quer ser o melhor do mundo; Du Pont é um “patriota, que quer ver o país crescer novamente”. Eles são a combinação perfeita, e só falta convencer Dave a deslocar-se com a família para a fazenda e aderir ao projeto. Quando John finalmente consegue fazê-lo, o clima entre ele e Mark já está pesado, ele já envolveu seu pupilo com a cocaína e provocou o afastamento entre os irmãos. A química certa para uma tragédia.

AVALIAÇÃO: Channing Tatum e Mark Rufallo também estão ótimos como os irmãos Schultz, mas é Steve Carell (sob pesada maquiagem), que domina o show, como o excêntrico milionário. Um sujeito que mostra grande autoestima, mas que no fundo é extremamente carente de reconhecimento e que manobra todos para isto. Assim é que Dave Schultz é quem sabemos todos ser o verdadeiro técnico da equipe, mas John rouba para si o título. Ou, mais ridícula ainda, a situação em que que ele obriga Mark a ler um discurso que nitidamente não foi confeccionado por este e que define John como “tutor, filatelista, ornitologista e filantropo”. Um sujeito patético.

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Capitão Fantástico (Captain Fantastic)

Capitão Fantástico (Captain Fantastic), drama com toques cômicos escrito e dirigido por Matt Ross, 2016.

ENREDO: 1997. Ben (Viggo Mortensen, da série Senhor dos Anéis) e Leslie (Trin Miller) estão certos de ter criado o paraíso. Eles vivem um sonho socialista/libertário (ou como quer que denominem esta vida) numa cabana numa floresta isolada no noroeste americano, fugindo do “capitalismo fascista” e das “corporações”, cultivando ou caçando seu próprio sustento, sobrevivendo da venda de pequenos artesanatos na cidade mais próxima e educando eles mesmos seus filhos, a quem deram “nomes únicos” como Bodevan (George MacKay), Kielyr (Samantha Isler), Vespyr (Annalise Basso), Rellian (Nicholas Hamilton), Zaja (Shree Crooks) e Nai (Charlie Shotwell). Pretendem-se totalmente autossuficientes: dominam seis idiomas (incluindo o esperanto!), a literatura, a política (bom, apenas a que eles julgam adequada), as ciências, a música, são seus próprios médicos, peritos em lutas, armas brancas, montanhismo…
Desgastada com esta situação (de acordo com o pai) ou por causa do parto do primogênito (na certeza de Ben), Leslie desenvolveu bipolaridade e Ben apelou à medicina tradicional, internando-a na cidade onde vivem a irmã dele (Kathryn Hahn) e o cunhado (Steve Zahn). Depois de algumas tentativas, Leslie consegue se suicidar e o sogro (Frank Langella, de Frost/Nixon) avisa o genro que, se ele aparecer para o enterro, mandará prendê-lo. Mas pai e filhos querem cumprir uma “última missão”, honrando os desejos da mãe: ser enterrada segundo o ritual budista, cremada e ter suas cinzas jogadas… num sanitário. Será uma jornada de descobertas para as crianças e a exposição ao mundano gerará atritos entre a prole e o pai.


AVALIAÇÃO: Ficção? Pode ser, mas há gente que pensa como o protagonista. Desprezar hambúrgueres, panquecas e tratar Coca-Cola como água envenenada pode até fazer sentido, mas impedir totalmente o contato com “a sociedade do consumo” já é demais! Para que adianta dominar seis idiomas, as ciências naturais, recitar e analisar obras literárias em profundidade se eles não desenvolveram habilidades sociais?
O choque cultural que o filme mostra é muito interessante (ops, adjetivo proibido por Ben, pelo seu sentido vago): a ida à cidade grande, a cara de espanto com o que vão encontrando pelo caminho, os itens do cardápio da beira de estrada (todos logo proibidos pelo pai); a incapacidade do primogênito em lidar com as cantadas e com o despertar sexual; o contraste com a educação dos primos, o videogame, a televisão…
No início, torci por Ben e pela preservação do seu modo de vida, mas, viver idolatrando as idiotices de Noam Chomsky e – numa sutil e bem sacada cena – usar uma camiseta com a efígie de Jesse Jackson (candidato radical às eleições presidenciais de 88 nos EUA) e praticar furtos contra estabelecimentos capitalistas já é demais… Assim, mesmo a figura do “sogro rico capitalista” acaba soando simpática…
Um drama muito interessante (“interessante” de novo? Desculpe, Ben), com ótimas doses de humor por conta da dupla de protagonistas mirins (Shree Crooks) e Nai (Charlie Shotwell).

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Rei Arthur (King Arthur)

Rei Arthur (King Arthur), aventura dramática de Antoine Fuqua (de Dia de Treinamento e Sete Homens e Um Destino), 2004.

ENREDO: Século IV d.C. O império romano estendia-se da península arábica até e Britânia (centro-sul da atual Grã-Bretanha) e a nova frente de expansão era a terra dos sármatas, povo de origem iraniana do leste europeu famoso por sua cavalaria militar. Derrotados os sármatas, os poucos que foram poupados o foram com a condição de servirem – bem como seus descendentes – por 15 anos nas legiões romanas.
Século V d.C. Restam apenas seis dos Cavaleiros da Grande Muralha, sármatas sob o comando de Artur (Clive Owen, de Trama Internacional, quando adulto e Shane Murray-Corcoran, quando jovem): Lancelot (Ioan Gruffudd, do Quarteto Fantástico), Galahad (Hugh Dancy), Tristan (Mads Mikkelsen, o Le Chiffre de Quantum of Solace), Bors (Ray Winstone, de Beowulf), Dagonet (Ray Stevenson, da telessérie Roma) e Gawain (Joel Edgerton). Eles estão acantonados próximos da muralha de Adriano, criada para defender a província britânica contra as incursões dos pictos (povo de origem celta da atual Escócia, ou “Caledônia”), comandados por Merlin (Stephen Dillane).
São os últimos dias do domínio romano na Britânia, pois a estrutura militar do império não permite defender fronteiras tão longínquas. São também os últimos dias do serviço militar dos cavaleiros e o bispo Naius Germanius (Ivano Marescotti) traz os salvo-condutos que os liberarão através das fronteiras do império até sua terra natal. Os papéis já seriam seus por direito, mas o insidioso bispo lhes dá uma última e perigosa missão: trazer a salvo Alecto (Lorenzo De Angelis), pupilo dileto do papa, que vive com seu pai (Ken Stott) para além da muralha. No caminho, há um obstáculo pior que os pictos: os saxões, liderados por Cerdic (Stellan Skarsgård, de Millenium) e seu filho Cynric (Till Schweiger, de Bastardos Inglórios), desembarcaram no norte da ilha britânica e avançam para o sul, pilhando e destruindo. E Alecto seria uma ótima fonte para um pagamento de resgate. Hora de Merlin e Artur deixarem as divergências de lado e lutarem juntos contra o novo inimigo.

AVALIAÇÃO: Estão presentes os elementos clássicos da lenda de Artur: a mesa redonda (usada por Artur como forma de mostrar que todos são iguais), os poderosos cavaleiros e também Merlin e Guinevere. Mas o filme, uma ficção baseada no que pode ter sido um personagem real, Lucio Artório Casto, traz alguns detalhes interessantes: Artur é filho de uma britânica com um romano, e fica dividido permanecer na sua terra ou ir para Roma. Ele é cristão, mas seus cavaleiros são pagãos. Merlin não é um mago, mas o líder dos pictos, que lutam para reconquistar seus territórios. Guinevere (Keira Knightley, de Piratas do Caribe) é uma pagã castigada pelos romanos de Mário Honório (Ken Stott), que é resgatada por Arthur e seus cavaleiros e que vai lutar ao lado dele.
Um detalhe que tive que “caçar”: o “rus”, lema bradado pelos cavaleiros quer dizer “país” em latim. Seria algo como “pelo país” (para Artur, a Britânia, para eles, a Sarmácia).
Vi o “director´s cut” (versão do diretor), com cerca de 2h20 (15 minutos mais longa que a original); não se sente o tempo passar, é muito bom!

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O Maior Amante do Mundo (The World’s Greatest Lover)

O Maior Amante do Mundo (The World’s Greatest Lover), comédia escrita, produzida, parcialmente musicada, estrelada e dirigida (ufa!) por Gene Wilder (de A Dama de Vermelho), 1977. D

ENREDO: Depois de perder vários empregos por passar o dia sonhando em serviço ou desrespeitar clientes e patrões, o neurótico confeiteiro Rudy Hickman (Gene Wilder) espera se tornar ator nos estúdios do magnata Adolph Zitz (Dom DeLuise, eterno parceiro de Gene Wilder), que está à procura de um novato que faça concorrência para o grande astro Rodolfo “Rudy” Valentino (Matt Collins) e se torne o “Maior Amante do Mundo”. Com o nome de Rudy Valentine (isso mesmo, com “e” no final…), ele hospeda-se junto de sua jovem esposa (Carol Kane) no melhor hotel de Hollywood e logo é tomado pelos funcionários como o verdadeiro Valentino. Mas isto não lhe assegura o sucesso e, além de enfrentar milhares de concorrentes para o teste, ele corre o risco de perder sua ingênua e deslumbrada esposa para o verdadeiro ator.

AVALIAÇÃO: Se O Irmão Mais Esperto de Sherlock Holmes não tinha muita graça, este outro filme de Gene Wilder (ator do fabuloso A Fantástica Fábrica de Chocolate original), então, tem uma série de piadas curtas, muitas vezes em tom de pastelão, mas quase todas sem graça. Wilder pode ter sido um ator muito versátil e genial, mas, como roteirista… Para deixar de ver sem dó.

 

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Programado para Vencer (The Program)

Programado para Vencer (The Program), drama biográfico de Stephen Frears (de A Rainha e Philomena), 2015.

ENREDO: Narrado com alguns tons de documentário, o filme mostra a trajetória de Lance Armstrong (Ben Foster), ciclista americano que ousou destronar os europeus (geralmente franceses e belgas) no circuito “Tour de France”, vencendo-o sete vezes consecutivas, de 1999 a 2005, e isto após ter derrotado um agressivo câncer de testículo com metástases no cérebro logo no início da carreira. Sua força de vontade para retornar às pistas o tornou um símbolo da perseverança, além de garoto-propaganda para as pesquisas da cura do câncer. Mas era um ídolo de barro, que dependia do médico Michele Ferrari (Guillaume Canet) para vencer a barreira da genética à base de drogas proibidas e ao mesmo tempo burlar os exames antidoping. E agora Armstrong juntou à sua equipe uma grande aquisição, Floyd Landis (Jesse Plemons), o que deve torná-los invencíveis.
Enquanto isso, um jornalista esportivo investigativo, David Walsh (Chris O’Dowd) está certo de que essa equipe campeã só pode ser fruto de doping e os abomina por destruírem o esporte que ele admira. Da imprensa aos tribunais é um passo, e Walsh parece destinado a perder sua guerra contra a sujeira no esporte, pois Armstrong é um símbolo do bem que, quando não convence com sua figura cativante, ameaça ou corrompe.

AVALIAÇÃO: Não saberia dizer se Armstrong realmente se comportava como Ben Foster o representa, mas o ator está ótimo, tanto quando se faz de inocente quando como se mostra arrogante ou ameaçador em relação aos que ousam denunciar o doping. Se por um lado ajudou as campanhas em prol da descoberta da cura do câncer, por outro Lance desmoralizou o esporte e o fair play. Um ótimo filme-denúncia, baseado no livro do repórter David Walsh.

 

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